segunda-feira, 6 de abril de 2015

A tensão que corre pela minha espinha

Já sentiu aquele aperto na garganta que não é medo ainda, mas um princípio, que causa um peso no estômago e te força a se encolher, que faz suar as mãos e também gelar os pés? Já teve isso quando via um filme, lia um texto ou via uma daquelas notícias aterrorizantes? Eu tenho uma certa atração mórbida e um guilty pleasure com isso, e várias vezes me arrependi de ter cedido. Geralmente é culpa de creepy pastas, que pra quem não conhece são histórias "reais" de coisas assustadoras, sobrenaturais ou não, envolvendo assuntos populares. Tem de jogos, filmes, situações ou até mesmo de casos como lendas urbanas. Toda Creepy Pasta que li e me arrepiou volta pra me assombrar. E é por conta de casos assim que escrevi o conto a seguir.
Quero instigar medo, causar essa sensação desagradável que traz tanta empolgação, fazer a pessoa ter aquele comichão atrás dos olhos que faz pensar "o que foi que eu li?" e fechar a janela com o gosto amargo na boca. Quem tiver o que comentar, por favor, faça! Quero saber se aticei seu medo. Aproveitem o jantar.

Acidente de Carro

Sarco acendeu o terceiro cigarro naquela noite e leu duas linhas do relatório, depois olhou para o rapaz que não parava de chorar, e voltou ao papel, pegando uma caneta para riscar as coisas que achou que valeriam a pena. O ambiente era pequeno, e a fumaça estava começando a causar crise de rinite no garoto que já estava com o nariz entupido. Precisava de ar, coisa que Sarco não daria. Fazia parte do seu método de interrogatório e pela situação tudo que ele queria era fazer o suspeito confessar o crime e poder ir pra casa.
- Escuta aqui, meu jovem, tu já passou pela mesa de seis só na última hora, não acha que tá em tempo de tu dizer algo que seja verdade, pra gente acabar logo com isso?
- M-ma-mas... eu falei... falei tudo que vi!
- Tá, tá, chega de conversa fiada. Eu quero que tu me resuma... conta o que aconteceu e eu vou escrever alguma coisa aqui e de repente a gente até te libera. Se tua história for boa, dá pra fazer um descontinho, tu paga pro Doni lá na frente e vai embora. Agora... se eu sentir que tu tá me enrolando...
O policial mexeu no casaco, abrindo só um o suficiente pro coldre da pistola ficar à vista. Em vinte e seis anos nunca precisou atirar pra valer, a não ser quando o maluco do sinal parou metade da rua pra gritar pra deus e o mundo que a mulher tava corneando ele e lançar tiro de espingarda pra cima. Por sorte nem precisou matar, mas era sempre bom ter a pistola à mão, dava o medo e trazia o respeito de que ele precisava. Serviu pro guri que tremia todo ficar mais centrado e começar o relato...
“A gente tava apostando racha, coisa boba, uns cinquentinha de cada um e pronto, eu tava com meu Cliozinho, achei que ia faturar uma grana. Só que as coisas não tavam tão bem, tinha vindo um moleque com um Uno tunado, desses que o motor é um ponto quatro, mas o cara mexe na caixa e consegue pegar cento e sessenta numa rua pequena, saca? E aí a galera tava meio grilada, mas tava de boa ainda. Até que chegou o Meleca.
O cara é tudo, menos gente boa. Ele curte umas coisa mais pesada, tá ligado? Desculpa... vô tentar não falar muita gíria nem enrolar. Contece que ele chegou com o Palinho, e o cara é lenda com ele. Vive levando o dinheiro do pessoal nessas apostas. E o Meleca parou e peitou o mano do Uno, avisando que ele ia pegar tudo que o cara tinha conseguido. A treta ficou tão séria que todo mundo parou de correr, conversar e fumar só pra ver a briguinha dos dois. Cada um entrou no seu carro e começou a corrida.
O Meleca começou na retranca, o Uno pegava demais, todo mundo pensou que ia ser de lavada, mas tinha uma curva desgraçada e o Meleca jogou o carro quase reto pra fazer o Uno ter que virar ou iam bater um no outro. Dava pra ver que o cara tava chapado e que não ia aceitar perder, então o Uno se lançou pro lado e lá se foi o Palio atravessar a linha de chegada. Claro que o Meleca saiu do carro cantando de galo, rindo, gargalhando e a gente pensou na merda que ia acontecer. Não deu outra, o Uno veio com tudo pra cima dele e prensou o Meleca contra a parede. A gente começou a gritar na hora.
Tipo, o Meleca virou purê, o cara jorrou sangue pra tudo que é lado e o cara do Uno não parou de acelerar até partir o cara ao meio. Eu tava me mijando já e saindo correndo! Peguei o meu carrinho e tava prestes a dar no pé quando a coisa ficou feia de verdade. A princípio achei que o Uno tinha fundido o motor e pego fogo, mas daí eu vi que o fogo tava saindo das rodas e de dentro do carro. Sabe o quanto isso é louco? Véio... desculpa, senhor... o cara do Uno tava gargalhando lá de dentro!
E daí a gente viu, ele baixou o vidro. Até aquela hora ele não tinha feito nada disso, só tava piscando faróis e estendendo a mão com parte do vidro aberta, mas em nenhum momento a gente viu o rosto dele. E ninguém achou estranho, de vez em quando aparece um doido que prefere não ser reconhecido porque é filhinho de papai e ninguém liga. Mas esse... essa... essa coisa... o rosto dele tava derretido, como se tivesse pego fogo e tinha os olhos vazios como se tivessem caído e a boca dele se abria num corte esquisito, os dentes muito pontudos. E ele só ria, gargalhava que nem o Meleca. E aí ele veio pra cima da gente, com tudo.
Cara, não vou mentir. Eu tava me borrando, nem lembro direito de mais nada, só sei que de repente eu tava voando, tentando fugir, e me joguei de um lado pro outro, mas acho que o bicho me marcou, porque foi atrás de mim que ele veio. Vi ele bater em outros carros e mandar os caras pra vala e o Uno, mesmo arrombado, sair de boa! Que cê acha que eu fiz? Parei? Nada! Tinha que fugir, sumir dali! Eu gritava, tava rezando, pedido ajuda divina!
E rolou a coisa mais estranha, o bicho tava soltando fogo, mesmassim não ficava queimando a estrada. Eu reparei porque teve uma hora que ele passou de mim e veio com tudo pra cima. Eu desviei, né, mas o carro dele fez um cavalinho de pau e ainda assim conseguiu me seguir. Foi aí que ele me encurralou. Eu comecei a chorar pra valer, tremendo de medo, o motor do carro falhou e eu bati na parede. Foi assim que quebrei o braço. Tava sangrando, todo fodido e o Uno colou em mim. Eu vi o monstro saindo de dentro, ele devia ter uns dois metros, e tava vindo pro meu carro. Não sou religioso de verdade, mas nessa hora eu tava orando pra valer.
Ele enfiou a mão pelo vidro e me pegou, puxando pra perto. Achei que ele ia me comer vivo, só que assim que ele segurou meu pescoço a mão roçou no meu crucifixo. Eu uso só poque minha mãe deu, mas eu vi que ele se afastou e pareceu sentir dor. Daí eu comecei a fazer o Pai Nosso alto mesmo e o cara segurou a cabeça e o fogo no carro dele acendeu, tipo, de soltar labareda. Eu não consegui mais parar, até que ouvi o grito, parecia um guincho de caminhão tombando e a criatura explodiu. Senti meu rosto ficar coberto do sangue podre dela e o carro quase foi junto, mas daí ele simplesmente apagou. E foi só nessa hora que a polícia chegou.”
Com a caneta flutuando em cima do papel, Sarco olhava embasbacado, não por conta da lorota, mas porque podia ver nos olhos do rapaz que ele acreditava mesmo naquilo. Haviam encontrado o guri quase morto em um carro batido contra a parede, com um Uno recém-incendiado do lado. Ninguém entendeu como o fogo apagou tão rápido, mas o corpo do motorista não foi localizado. Pelo jeito o carinha tinha ficado traumatizado com o acidente e agora... Sarco coçou a cabeça e achou melhor pedir pra alguém levar ele pra uma cela, mandar chamar uns psiquiatras e ver o que eles fariam.

Acendendo o sexto cigarro, Sarco estava colocando o casaco quando ouviu os gritos e correu pra ver o que estava acontecendo. Parou no meio do corredor tossindo fortemente e percebeu que nem em sonhos aquilo tudo seria fumaça de cigarro. De longe podia ver a cela do rapaz, que tinha entrado em chamas e viu quando ele irrompeu entre as grades, o corpo deformando pelo fogo, os olhos caindo e a boca se abrindo em um sorriso rasgado... e vindo pra ele.

2 comentários:

  1. Nossa, ok, vamos lá.
    Sim, sei bem qual é essa sensação de medo, do arrepio, do frio nas extremidades e cabeça zunindo. Quase me borro de medo com qualquer coisinha mais que eu leio, mas essas sensações são o que me faz continuar, que me fascina, que está virando meu TCC. Agora, quanto ao conto, se fosse algo mais em primeira pessoa acho que passaria tranquilo por uma creepy pasta, é bem o tipo.
    Quase pirei com a descrição do monstro, dele aparecendo do nada, e o final acendeu essa sensação do medo.
    Adorei Ton, é inspirador XD

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu me inspirei muito na tua proposta de TCC, Monichan. Estou reexplorando meus medo ultimamente e percebendo coisas que antes eu ignorava. Acho que me fez bem, pois ao trabalhar com o pavor, o tenso, o pânico, estou mais afiado. Eu não sei de onde veio a ideia do conto, mas o que senti perto do fim foi a agonia, um relato que poderia ter sido passado por aí, como uma lenda urbana. E gostei muito dessa sensação. Espero que as outras pessoas sintam o mesmo.

      Excluir