quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Noite das Bruxas

Antes que perguntem, não, não estou fantasiado de fantasma escritor, eu realmente estou de volta. Passei por um longo período em que não consegui me concentrar em escrever, revisar e mandar pra cá meus textos, mesmo aqueles mais antigos. Em compensação, consegui muitas novidades. Estou escrevendo para a NeoTokyo agora, e saiu uma matéria minha na edição 91. Sobre o quê? Bom, sobre Great Teacher Onizuka, versão dorama. Acreditem foi muito bom escrever e espero que gostem.
Também estou de emprego novo, a começar na terça-feira agora, dia 5. Vou trabalhar na ComDado Revistaria, no Kobrasol, uma loja de card games bem legal comandada pelo Rafa Barcelos. Quem quiser dar um pulo lá pra ver os produtos, conhecer o local ou jogar alguma coisa, estarei toda segunda à sexta lá pela manhã até umas cinco horas!
E pra completar minha volta, uma série nova de textos, meio a ver com a data, baseada no cenário que eu criei para Vampiro a Máscara. Casualmente criarei mini-histórias de personagens meus envolvendo outros PNJ's (Personagens Não Jogadores) e até alguns PJ's quando eu tiver como. No caso de hoje... Todo mundo tem que fazer relatórios, até mesmo os mais confiantes e responsáveis. Mas... E quando tem que relatar algo bem ruim? Vejam por si mesmos.

Audiência com o Demônio



As portas do elevador se abriram, revelando o saguão de piso de mármore. Uma única mesa esperava por ele, e duas portas duplas de mogno escuro o separavam do seu objetivo, a reunião que não queria ter, mas precisava. Dois olhos azuis o fitaram detrás da escrivaninha, e um homem de cabelos tão negros quanto a noite e sorriso contido o cumprimentou com um meneio singelo, quase como se quisesse se ocultar da pessoa na sala fechada. Uma rápida troca de gestos e os dois se entenderam, o chefe estava furioso.
Percorreu o espaço até a maçaneta com passos rápidos e duros, parou para inspirar o ar desnecessariamente, e então forçou a entrada. O homem estava lá, de pé, observando sua cidade pela parede de vidro. Nenhum movimento, nem uma palavra para dizer que entrasse e fechasse a porta. Ele já sabia disso, era o costume, e quebrá-lo é que seria estranho. Postou-se aos pés dos três degraus que separavam o platô onde a cadeira do patrão repousava. Em silêncio o homem de terno rubro postou-se a frente dele. Mesmo que não houvesse diferença de altura, era óbvio que o mais poderoso entre eles não poderia olhar nos olhos o mais fraco. Ele não iria discordar da obviedade.
- Você falhou comigo mais uma vez. – as palavras soaram pesadas como chumbo e o fizeram baixar ainda mais a cabeça, encarando os detalhes dos degraus.
- Senhor, eu...
- Sem desculpas. Quero um relatório completo. Se mentir, saberei, então esteja ciente, é sua única chance de se retratar.
Suspirou, soltando um som engraçado pela falta de ar nos pulmões. Estar morto deveria parecer o suficiente, não importa a situação. No entanto, é claro que “morte final” poderia ser bem pior. Tantas obrigações, tanto a fazer, e a qualquer momento acabaria deixando tudo para trás e embarcando numa viagem só de ida para o Inferno. Escolheu bem o que dizer.
- Bem, como começar...
...
A noite começou particularmente calma para uma quarta-feira. Normalmente o meio da semana poderia ser irritantemente barulhento, considerando que era o dia em que todos os neófitos decidiam ir para as ruas caçar para estarem prontos para o fim de semana. Uma rotina idiota criada pelas primeiras crias dos anciões quando chegaram à cidade. Logo, era impossível que ninguém estivesse se preparando para aprontar alguma coisa, então parti em ronda, passando pelos principais pontos de encontro.
Depois de mais de duas horas de passeio, acreditei que realmente era um daqueles dias milagrosos em que as pessoas sem combinar acabaram fazendo algo em comum e que poderia partir para as MINHAS tarefas. O senhor sabe, aquelas que não envolvam meus deveres para com a seita. E é claro, foi exatamente aí que as coisas deram errado.
Eu peguei um idiota perseguindo um grupo de baderneiros, tão magrelos que poderiam ser levados pelo vento caso fosse a temporada. Sinceramente, eu já vi gente recém-criada mais esperta do que ele. De longe dava pra avistar que os moleques, mesmo sendo tão fraquinhos, estavam armados e em número muito maior. Tudo bem que ele poderia ser rápido e forte, talvez fosse do clã certo, porém duvido que ele tivesse a capacidade de dar cabo de todos eles sem chamar a atenção, então resolvi seguir. Meu primeiro erro foi aí, senhor, pois em nenhum momento pensei que poderia ter algo bem mais errado na situação.
Eles continuaram andando por mais umas três quadras, com o babaca na retaguarda, seguindo abertamente o grupo. Eu juro, senhor, que se ele estivesse com os dentes à mostra e os olhos vermelhos não dava para parecer mais culpado. Depois que eles entraram em um estacionamento fechado, saltando a cerca, ele foi atrás e aí estava meu segundo erro. Eu deveria ter pensado em uma abordagem que não envolvesse jogar o cara na parede e estapeá-lo, antes ou depois de ele apanhar e eu ter de salvá-lo.
O estacionamento era enorme, provavelmente por conta do clube ao lado, mas esta noite não tinha eventos para que ele estivesse aberto e dava espaço para aqueles moleques invadirem lá e pensarem em usar alguma droga, beber ou praticar que espécie de ato ilícito eles quisessem. É, eu sei, mas a noite estava tão calma que não passou pela minha cabeça que isso era ainda mais suspeito do que o cara seguindo eles sozinho. Dá um desconto... Digo, me perdoe, senhor, eu sei que ferrei com tudo. Ainda piora.
Quando eu localizei o cara, ele estava observando o grupo de trás da guarita, exposto como um lagarto tomando banho de sol. Péssima comparação, aliás, porque eu finalmente notei que parte da pele dele parecia descamar. Apesar de tudo, o novato era um dos feiosos, então nada do que ele estava fazendo tinha sentido. E sim, foi aí que percebi que as coisas não estavam se encaixando. Parei onde estava e olhei em volta rapidamente. O grupo tinha sumido e o cara agora me encarava. Lugar grande, céu aberto, grandes chances de estar cercado de atiradores e a única arma que eu tinha só devia ter doze balas. O que queria dizer que eu precisava contar com o que tirasse de cada um deles depois de derrubá-los.
Consegui achar os cinco “mortais” nas minhas costas. Eles deviam ser rápidos ou eu estava muito lerdo, não importava. Eram seis alvos ao todo e ao menos um deles tinha disciplinas para usar contra mim. Achei melhor deixar para usar a pistola direto nos miolos de cada um deles. Esperei que alguém se mexesse, qualquer um, para que eu tivesse a vantagem dos movimentos, mas eles esperavam pacientemente como hienas, loucos para tirar o meu sangue. E só então eu entendi. Eles eram viciados, do tipo que deve ter provado nossa vitae alguma vez, por conta de algum imbecil e agora se juntavam a fornecedores que armavam para nós e tiravam uma grana com isso.
Por isso tão magros, os viciados deviam se alimentar só da gente, e vez por outra lembravam de que deviam comer, quase sempre morrendo antes disso. Cheguei a sentir pena por... Uns dois segundos. E então cansei de esperar e ataquei. Ia acabar com o vampiro que havia me metido naquilo, talvez dando uma lição nos pirralhos. Acho que ele não imaginava que eu ia ter coragem ou talvez pensou que na vantagem numérica eu ia atacar os outros primeiro. Sei que eles também cometeram dois erros: Eu não sou qualquer um, sou o cara que coloca a ordem nessa cidade... A serviço do senhor, é claro. E sou bom no que faço.
O segurei pelo pescoço e o pressionei contra a guarita. Ele perdeu a noção do que estava acontecendo por um tempinho, o suficiente para que eu forçasse a cabeça dele janela adentro, quebrando o vidro. Com outro movimento usei o que havia restado da janela e cravei no pescoço dele, fazendo a cabeça rolar para a cadeira e ensanguentando tudo na guarita. Sim, foi precipitado e o tipo de coisa que eu não deveria fazer. Mas teve o efeito desejado, senhor. Os garotos se borraram de medo, literalmente.
Não precisei da pistola. Cheguei entre dois deles antes que pudessem pensar em fugir. Joguei um contra o outro, amassando seus crânios. Quebrei o pescoço de mais um próximo e encarei os dois últimos que finalmente saíram correndo. Admito que queria isso, queria a adrenalina de me jogar em cima deles, caçá-los como gazelas. Estava ficando com fome e a raiva havia subido pelas veias, liberando parte da besta em mim. Joguei um deles no chão, com certeza cravando asfalto em seus miolos e abocanhei a garganta do último. Houve algo de ironia nisso, já que peguei de volta o que eles estavam roubando. Tudo bem, não foi engraçado.
Encarei todo o estrago, e poderia ter sido pior, senhor, juro. Foi um trabalho rápido, quase sem fazer barulho, e com certeza não havia nenhuma testemunha. Minha equipe chegou em questão de minutos para limpar a bagunça. Eu ainda consegui uma forma de justificar a guarita destruída (que eu tive que arrancar para não limpar o sangue) com o roubo do único carro parado lá, provavelmente um pobre coitado dum mensalista. Fiz o melhor que podia pra transformar tudo em algo produtivo.
...
Ainda sem olhar para seu mestre, o xerife engoliu em seco, outro ato falho de sua mortalidade insistente. Como vampiro, nunca precisava demonstrar cansaço ou nervosismo, no entanto, sua natureza não o deixava desacostumar. Pelas sombras, percebeu que o príncipe se recolhera à cadeira e aguardava sua atenção. Levantou devagar a cabeça e o encontrou encarando com um ar maligno. Viria uma bomba ali.
- Compreende que você mais uma vez causou mais danos do que o necessário e que em breve acabará por falir esta unidade?
- Sim, senhor, eu lamento por tudo, senhor, mas eu posso pagar...
- A questão não é de quem arcará com os gastos, e sim, eles serão seus, mas do princípio de suas atividades. Você se gaba de ser bom, e ainda assim é incapaz de dar conta de reles mortais sem tornar isso algo comparável ao que aquela outra seita faz, e por diversão. Se continuar assim, me parecerá uma propaganda, e você sabe o quanto detesto este pensamento.
Ah, é óbvio que sim. Nunca partilhara da mesma ideia de seita que seu senhor, e odiava pensar que tinha que seguir as regras dele só porque a hierarquia milenar o mandava. Porém, se saísse dizendo isso, sua cabeça estaria em uma bandeja de prata antes que pudesse dizer “Caçada de Sangue”. Quem sabe não seria agora que testaria essa teoria?
- Não vou lhe punir como deveria, Takashi, porque detesto pensar que perderia tempo e um funcionário, quem sabe, valoroso com isso. Não. Vou lhe dar algo que vai detestar mais ainda: Uma tarefa especial.
Conhecia aquela expressão, sempre indicava algo pior do que a morte final, o tipo de coisa que te faria desejar ter a cabeça arrancada, se banhar no sol do meio dia ou tomar um banho de água benta.
- Você terá que cuidar de receber nossos visitantes em breve, na próxima lua cheia, e tratá-los com cortesia, além de levá-los para onde quiserem enquanto preparamos a recepção em nosso salão de festas.
- Como o senhor desejar, meu príncipe... Mas... A próxima lua cheia não é amanhã?
O soberano inclinou-se um pouco para ficar mais perto do xerife.
- Exato. E os visitantes são a corte de São Paulo.
Sem querer, Takashi engoliu em seco mais uma vez. Marcos, seu príncipe, não fora misericordioso, ele realmente lhe condenara à morte final. Se havia alguém que gostaria de matá-lo, este era o príncipe da maior capital dos vampiros no país. E pensar que tudo havia começado tão bem naquela noite. Sem dizer mais nada, fez uma reverência e saiu, deixando para trás um monarca orgulhoso de como fora inteligente na sua escolha. Ouviu ainda ele dizer antes das portas fecharem:
- Ninguém falha comigo tantas vezes e sai impune.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Todo mundo...

Já passou por aquela situação interessante de se reunir com a família... Da mãe. Do pai. A própria, depois de cinco, dez, até quarenta anos de casado. E há aqueles que sempre aparecem. O tio mala, a tia fofoqueira, o primo trambiqueiro. Bem, alguns tem famílias diferentes, com gente que é diferente mesmo, mas quão diferente? Acompanhem um pequeno causo dessa família aqui...

Reunião Familiar


Foi uma ocasião rara, os sete se reunirem assim, sem algum motivo muito importante como o fim do mundo ou quem faria o próximo inventário da família. Por conta de sua enorme vontade em exibir a nova coleção de Portinari que comprou em um leilão, Orgulho ofereceu sua casa para receber o clã, apesar dos protestos de Preguiça. Mas como ele só os fez uma semana depois, acabou por isso mesmo e Luxúria passou no loft dele no caminho, afinal houve uma festa na noite anterior, a apenas duas quadras dali, e ela não podia perder.
Começou no meio da tarde, nem cedo demais nem tarde demais, para não interromper nenhuma refeição do Gula, que estava em dieta controlada. Ira foi o último a chegar, batendo com força na porta porque haviam esquecido, de novo, de deixar a vaga dele aberta e novamente teve que deixar o carro ligado enquanto abria os portões. Como sempre, coube ao Ganância, o líder do grupo, a ingrata tarefa de apaziguar a todos... Até o momento em que foi pego roubando, mais uma vez, a carteira da Inveja, que não parava de olhar pro vestido curtíssimo de Luxúria desejando avidamente tirar aquela peça dela... E sair correndo porque estava louca pra experimentar.
Enquanto trocavam farpas aberta e avidamente, Orgulho foi conferir pela décima sétima vez se os Portinari estavam todos bem expostos para que ninguém deixasse de reparar neles e fazer comentários. Luxúria tremia de excitação pelos abraços apertados de todos, o que rendeu uma pequena anedota depois entre Ganância e Inveja, acerca do momento em que a garota abraçou Gula, mantendo-o longe da mesa de doces. Inveja estava verde de ver a gostosa da irmã tanto tempo abraçada com o fabuloso, e inexplicável, irmão musculoso, enquanto Ganância pensava em como era ótimo ter mais doces para poder pegar para si. Não que fosse comer. Odiava doces.
A grande estrela da festa no final foi o Preguiça, que de tanto tédio, acabou cochilando na varanda. Depois de algumas horas de resmungos e até gritos constantes, Ira reparou na falta do irmão, que já congelava de frio da chuva torrencial que caía, mas por pura falta de vontade, tinha ficado do lado de fora mesmo depois de acordar. Com muito trabalho, Orgulho o arrastou para dentro e para longe do seu carpete, colocando-o no banheiro principal, para que ele não esquecesse de reparar no mármore da pia.
Tinha ficado tarde já e Luxúria precisava sair URGENTE para encontrar os amigos “especiais” na festa logo a duzentos quilômetros dali. Em rápida troca de palavras, Inveja garantiu que a irmã viajaria até a China se fosse pra ficar se jogando no meio de machos. Gula concordou, mas ficou pensando que... Ah, se fossem doces... Por que não? Ira saiu em seguida, mais uma vez furioso porque, agora, Ganância havia roubado um dos quadros de Orgulho que veio correndo atrás dele gritando “É meu!”, sendo seguido por Inveja que gritava a mesma coisa, curiosamente, e acabaram esbarrando em Gula que derrubou o prato de doces no casaco de Ira. Conclusão? O irmão brutamontes desferiu porrada em todo mundo, e foram parar no hospital.
No fim das contas, o último a sair, quer dizer, que ainda não saiu, foi Preguiça, esquecido do lado da mesa da comida, ainda com pouca vontade de ir pro quarto descansar em uma cama melhor do que o sofá de quinze mil do irmão. É que dá muito trabalho. Essas reuniões de família sempre terminam assim.

domingo, 4 de agosto de 2013

Lua Macabra... O Retorno

É, eu sei. Eu estou sumido daqui há algum tempo, mas foi por uma boa causa... Ou algo assim. O que importa é que estou de volta, com um conto novo, revisado e preparado para servi-los com uma deliciosa história que... Melhor não dar spoilers, pega mal. Já aviso, porém, que provavelmente fará parte da safra Lua Macabra, então esperem por algo que terá sim a combinação de terror, romance e... Algo mais. Vocês verão. Aproveitem o conto!

Grandes Erros


O celular gemeu mais duas vezes e então apagou, a bala atravessada na tela de cristal líquido deixando preso para sempre o pedido de ajuda não enviado. A ponta da pistola ainda fumegava, agora apontada para seu peito, e não haviam sorrisos ali, nem olhares amigáveis. Só o terror absoluto da morte certa. Alguns grunhidos desajeitados escapavam da sua boca, os olhos circulando pela sala, em busca de salvação, mas só encontravam os corpos dos amigos caídos pelo chão e o sangue lavando a parede cinza de sujeira.
Como havia parado ali mesmo? O que tinha feito de errado pra que ficasse na pior, para estar tão perto de suas últimas palavras?
Havia levantado bem, escolhido uma lingerie sexy, preta em contraste com sua pele muito branca, e um vestido nem longo nem curto que cobriria só o necessário e mostraria o suficiente. Um pouco de maquiagem e “voilá”, estava pronta para encontrar aqueles que eram sua família escolhida e que a aguardavam na frente de uma boate da zona leste, com um nome genérico e bebidas idem, mas com gente suficiente para ela poder escolher qualquer acompanhante. Estava pronta para fisgar sereias ou tritões, independente da vontade, seria capaz de levar qualquer um na sedução.
Os amigos se dispersaram, lançando-se em todos os focos possíveis, fossem os fãs da banda no local, os ratos de bar ou os visitantes perdidos a fim de um affair. Para ela, no entanto, alvos tão fáceis eram um grande problema, um tédio sem fim que não valia a saída em uma quinta à noite. Com uma olhada rápida, visualizou algumas boas presas, deliciosos homens e mulheres que se renderiam a um belo decote e um sorriso fatal. Escolheu entre eles o que parecia mais difícil e lançou-se ao desafio.
O homem que estava sentado perto de um dos pilares da danceteria poderia passar tranquilamente por um segurança, tamanha carranca e distinção do seu terno. Ele a notou de longe, enquanto ela cruzava a pista dançando, e fez que não havia percebido suas intenções. Quando ela se recostou ao seu lado, ele se afastou um pouco para não ficarem ombro a testa, e ela pode ver os contornos dos músculos por baixo da camisa social azul. Seria uma ótima conquista, das que se vangloriaria para as amigas depois.
- Que foi, está com medo que eu morda?
Ele não respondeu e ela mordeu os lábios, tanto por raiva quanto provocação, exibindo os belos dentes brancos. Olhou para a mão dele e não encontrou nenhum anel, então provavelmente era birra, ou talvez fosse mesmo um segurança perdido.
- Se não está aqui para procurar por mim, talvez esteja aqui por homens, certo? – tirar sarro era uma de suas alternativas mais baixas, mas já rendera bons momentos no estacionamento.
- Você não é o tipo de mulher que eu procuro. – respondeu ele com uma voz cavernosa e ela chegou a sentir as pernas tremerem, mesmo que com uma frase tão rude.
- Como sabe se nem me viu direito? Está desviando o olhar desde que eu cheguei na casa.
- Não preciso ver para ter certeza de que não queremos a mesma coisa.
Era realmente um páreo duro, dos que figurariam como lendas em futuras conversas de bêbada. E exatamente por isso não desistiria, não tão fácil, por mais que seu orgulho, e talvez algum outro instinto mais primordial, estivesse dizendo que não era uma boa ideia.
- Façamos assim, eu lhe pago uma bebida ali, sem compromisso, e você me deixa tentar ao menos uma vez te fazer mudar de opinião.
Isso foi capaz de tirar os olhos dele do globo de luz, DJ, ou o quer que fosse que ele estivesse dedicando mais atenção do que a ela. Por isso, ela se arrepiou quando os olhos negros dele se cravaram nos seus e quase se arrependeu da proposta. Quase.
- Feito. Tem uma mesa vagando ali.
E foi, sem esperar por ela. Em outras circunstâncias ela teria procurado outro cara ou garota e simplesmente abandonado aquele troll, mas havia algo dentro dela que despertava, uma sede intensa por aquele homem que, não importava o quê, a estava não só esnobando, como ignorando completamente seus ataques. Pensou no perfume que escolhera, na pele exposta, na maquiagem delicada que a fazia parecer uma garotinha, e no sorriso treinado à exaustão diante do espelho e nada parecia estar errado, então o problema só podia ser ele.
Acompanhou-o rebolando, para que os outros ficassem alertados que, assim que ela tivesse acabado com aquele homenzarrão, estaria pronta para mais. Ela nunca se contentava com um só e não seria ele a mudar isso nela. Sentou-se no lado oposto da mesa e pediu por dois copos de uísque. A escolha o fez levantar o olho e ela sorriu, deliciada com a surpresa.
- É óbvio que um homem do seu porte bebe algo de igual valor.
Ele sorriu pela primeira vez e ela notou os dentes sujos de fumo, o que reduzia em muito o tesão, pelo menos naquele momento. Fumantes eram um problema que ela preferia evitar, principalmente porque eles lidavam com algo extremamente perigoso, o fogo. Para os outros era fácil, mas ela tinha um pouco mais de medo da chama matriz, a grande inimiga de coisas que eram altamente inflamáveis, como a bebida que acabava de chegar.
Durante os vinte a trinta minutos seguintes ela tentou de todas as formas puxar um papo interessante, que rendesse no mínimo uma agarração na porta do banheiro, o que resultou em saber que o nome dele era Adam Corso, mais conhecido por Corsário, tinha em torno de trinta anos, solteiro convicto e gostava de cachorros grandes, tipo dobberman. Além disso, ele tinha uma fixação meio mórbida por objetos de prata, e ela temeu que ele fosse tirar de dentro do colarinho um crucifixo daqueles que seria capaz de se colocar em cima de um túmulo, mas foi apenas um colar de caveira mexicana.
- É para dar sorte, uma vez estive por lá no Dia dos Mortos e ganhei isso de um dos locais, que garantiu que me protegeria para sempre. Realmente, acabou me salvando a vida outro dia.
- Verdade? – perguntou já quase sem interesse. Que ele fosse um desafio, OK, mas ela estava começando a pensar que ele era apenas um chato.
- Ah sim, mas isso... Eu posso te contar depois. Está a fim de dar uma volta?
A pergunta a pegou de surpresa, desarmada, e ela acabou deixando mostrar que não tinha uma resposta pronta. Nunca antes tinham sugerido sair dali que não fosse para qualquer lugar próximo onde ela daria um sumiço na calcinha ou algo assim e por um instante pensou nos prós e contras. Por um lado ele poderia querer levá-la a um motel, onde poderia desfrutar de privacidade suficiente para se saciar nele, apesar de depois ser meio chato fingir que não esteve lá. Nada que um papo cabeça com os atendentes e uma rápida passada pela sala de segurança não resolvesse. Por outro lado, ele poderia estar planejando levá-la a seu apartamento, tentar estuprá-la e dar um fim ao seu corpo jogando-o no lixão. O que também era uma boa oportunidade, já que perigo sempre gera ótimos momentos de tensão e isso a deixava acesa como uma vela na igreja... Epa. Péssima metáfora.
- Tudo bem, garotão. Só deixa eu avisar meus amigos. – e então vasculhou o lugar, procurando por qualquer um deles, mas estranhamente não os encontrou.
Talvez tivessem escolhido sair todos juntos para comerem, ou talvez fosse apenas a falta de atenção, como não os viu decidiu dar o fora assim mesmo. Qualquer coisa voltaria depois, de repente usando o carro daquele homem misterioso, e poderia buscá-los em alto estilo. Ou isso ela esperava, pensando sinceramente que se visse um Fusca na vaga dele, mudaria de ideia na hora. Por sorte encontrou uma belíssima Mercedes Classe A escura como os olhos dele e partiu dali, para onde quer que ele a estivesse levando.
- Gosta de música? Eu tenho alguns cd’s interessantes no porta-luvas.
Agora ele queria ficar animado, ela pensou, e decidiu que era melhor manter o clima, por isso abriu o porta-luvas e encontrou ao menos cinco cd’s, todos de bandas completamente diferentes.
- Você é bem eclético, né?
- Tento. Sempre que posso, compro algo baseado em quem dou carona. Gosto de conhecer coisas novas. Qual sua banda favorita?
- The Damned, mas duvido que você os conheça, são uma banda undercover da área onde moro.
- Vou tentar escutar depois, então. É um hobby, se quer saber, e é muito divertido.
- O quê? Conhecer as bandas que as garotas que você pega escutam?
- Exatamente.
Por algum motivo aquilo a deixou muito desconfortável, o que não era habitual. Percebeu que quanto mais avançavam, mais perdia o controle, e esse era um terreno desconhecido para ela. Nunca antes tivera tantos problemas em uma caçada ou demorara tanto para pegar um homem. A curiosidade começava a sumir e uma pontinha de medo surgiu em seu coração negro, que por um instante pensou ainda possuir.
- Estamos chegando. – disse ele, de repente, e ela se assustou ao ver que não sabia onde estavam.
Era uma área residencial bem pacata, do tipo que os pais escolhiam para viver com seus filhos quando eles nasciam e não havia mais nada importante no mundo. Ela podia ver as crianças correndo pelas ruas tranquilas, homens e mulheres passeando com seus cachorros e o carteiro pedalando a bicicleta em paz, sem pressa. Tão simples e calma que poderia fazê-la se jogar para a morte de tanto tédio. Um pensamento cruzou sua cabeça: Talvez fosse isso mesmo que estivesse fazendo. Afastou as ideias ruins e saiu do carro com ele na frente de uma garagem fechada. Ele a levou mesmo para casa e ela pensou em como faria para voltar para a danceteria depois, sem saber o caminho. Maldita hora que ficou escolhendo os cd’s.
- Pode entrar, sinta-se em casa. – ele disse quando abriu a porta e ela agradeceu mentalmente que ele fosse gentil ou teria um momento constrangedor.
Era uma sala bonita, de móveis novos e com uma lareira e a casa parecia muito amigável, o que reforçou a sensação de que algo estava terrivelmente errado. Sentia o cheiro de bolo de canela, de uma cerveja tomada no fim da tarde e das flores nos vasos, além de outro que era muito, muito familiar, mas que por algum motivo lhe escapava da memória e era ruim, ruim pra cacete. Ele tirou o paletó e jogou sobre o sofá, em um gesto displicente, mas que nada tinha a ver com uma demonstração de excitação que denunciaria um ataque à sua donzelice.
- O que foi? Algum problema?
- Não, é só que não estou acostumada a fazer isso. – confessou, aproveitando que não era uma mentira para esconder a verdade.
- Acredito, você tem jeito mesmo de quem faz muitas coisas, menos ir à casa de um homem direto de um bar.
Ela riu, nervosa, do que talvez fosse o comentário mais maldoso e perverso dele até agora. Pensou nas rotas de fuga, em como tudo poderia estar certo e ela estar simplesmente necessitada, e por isso não estava pensando direito. Ouviu o som estralado de uma garrafa abrindo e retesou, vendo-o de costas mexendo em um armário.
- O uísque não foi suficiente?
- Nah, eu só estava pegando o brinquedo certo para uma vadia como você. – disse ele e se virou apontando uma arma para o meio de seus olhos.
Ok, então ela tinha ouvido uma arma e confundido com uma garrafa. Normal, muita gente fazia exatamente o contrário. Arreganhou as presas e lançou-se sobre ele, completamente transformada, antes que ele pudesse pensar em sentir coceira no dedo da arma. Ainda assim, ele desferiu o tiro que atravessou seu pulmão morto e causou intensa dor. Por pouco não acertou o coração.
- Ê, ê! Cuidado, as balas são de madeira e prata.
A frase soou tão errada que ela demorou a perceber o porquê, e era algo mais do que apavorante. Era uma frase muito certa, típica de alguém que estivesse não só ciente, mas confiante de como se mata vampiros. Se pudesse, sua espinha teria gelado naquela hora.
- Como...?
- Sem perguntas, ande em direção ao quarto.
E apontou para uma porta semi-aberta, de onde ela percebia que vinha o cheiro de antes, que ela não reconhecera. Assim que chegou perto pensou em como era estúpida, em como havia falhado muitas vezes e estava tremendamente ferrada agora. Atravessou a porta e encontrou um quarto muito grande, praticamente sem móveis, no qual outros três homens apontavam armas para ela. Eram como ele, normais demais para parecerem estranhos, e portavam armas igualmente simples, mas com munição letal à sua espécie. Morreria antes de pensar em sugar o sangue de qualquer um deles.
Demorou pra perceber o que causava o cheiro e quando viu só pode chorar. Havia pelo menos uns dez corpos de vampiros estirados no chão, em decomposição acelerada. Tornariam-se pó antes do amanhecer. Eles eram caçadores e estavam satisfeitos em dizer que haviam feito uma grande caçada e talvez continuassem depois dela. Em soluços fingidos, acompanhando as lágrimas de sangue que corriam de seus olhos, tentou tirar o celular de sua bola em extrema velocidade e ligar para pedir por ajuda. Um dos caçadores percebeu seu movimento e atirou, jogando-o no chão e ferindo sua mão. A tela ainda brilhou com o primeiro botão apertado, o número de emergência.
E lá estava ela, no único quarto podre daquela casa bela, em um bairro pacato e que provavelmente era apenas uma enorme sede de caçadores disfarçada de subúrbio. Ela tinha encontrado seu fim, e não havia nada que trouxesse satisfação naquele momento. Para piorar, não tinha bebido nenhum dos homens que agora a torturariam antes de explodir sua cabeça e a sede ficava muito forte. Tanto que seus sentidos estouravam, aguçados ao máximo. Um zumbido irritante começou a soar em seus ouvidos e ela amaldiçoou o dia em que ganhou esse poder, até que percebeu o que ele indicava. Sorriu.
- O que é, sua vaca? Surtou sabendo que vai virar poeira? Você e sua espécie de merda vão todos virar pó e a gente vai fazer de tudo pra isso acontecer. Ah, porra, por que você está, rin...?
Ele não terminou a pergunta porque um carro, o seu carro, havia atravessado a parede, abrindo ao meio os quatro caçadores. Pelo jeito eles não tinham pego TODOS eles, um escapara e agora saía pela porta de trás do sedan quase completamente demolido.
- Ei, Ann, está bem? – perguntou a mirrada vampira que a idolatrava e que pelo jeito a seguira também.
- Por pouco, querida, por pouco. Se você não tivesse entrado com o carro...
A bola atravessou suas costelas, raspou no coração e foi parar no pedaço de parede que pendia do teto no buraco aberto pelo carro. Ann virou furiosa para o atirador e encontrou seu homem, o Corsário, ás portas da morte, sem o braço e sem um olho. Ele parecia ter sido esmagado pelos destroços e talvez não sobrevivesse para o próximo minuto mas ela não o deixaria escapar tão fácil. Mordeu o pulso e enfiou na boca aberta dele antes que ele pudesse pensar em algo e o fez absorver o suficiente.
- Toma, seu filho da puta. Transforme-se, e espero que sobreviva para devorar seus amigos de fome antes do sol nascer. E amanhã, quando estiver perdido e desamparado, eu vou te caçar e dilacerar e sugar de volta todo o sangue que te dei. Vou ficar esperando, seu desgraçado.
E abraçou a amiga, saindo para o céu noturno.
- E agora, Ann, o que vamos fazer?
- Vamos pra minha casa, eu preciso arranjar um outro vestido e... Droga, eu adorava essa lingerie.
- E depois?
- Depois vamos atrás de um lanchinho, porque eu estou morrendo de fome.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Gosto de Infância

Foi a Ann que me surgiu com essa frase e eu adoro como ela realmente soa bem, lembra daquele achocolatado vendo Jetsons ou da pipoca no cinema enquanto via Toy Story. Ok, talvez não fosse exatamente falando da comida, mas de ter em mãos ou rever alguma coisa que fez parte da nossa infância, uma lembrança gostosa e divertida. Então é por isso que trago aqui hoje uma pequena resenha de Laços, minha mais recente aquisição pra minha biblioteca de histórias em quadrinhos especiais. O que vocês vão ler é a empolgação de uma criança que de repente pode reassistir seu filme favorito. Embarquem comigo nesse feeling.
 
Laços
Desde o dia em que conheci o Puny Parker, em uma página que já não lembro mais, eu fiquei com inveja do dom de Vítor Cafaggi em desenhar histórias suaves, com personagens profundos e dilemas instigantes. Acompanhei todo o percurso até nosso herói da vizinhança mirim terminar sua saga, e segui pelas atrapalhadas do cachorrinho Valente, que parece não dar uma dentro. Eu realmente passei a admirar este autor e quando vi suas páginas com o Chico Bento no primeiro especial de 50 anos da MSP eu só pude pensar em quando esse gênio poderia publicar algo do tipo em um título próprio. Essa espera acabou com Laços.

Devo dizer, eu já conhecia Vítor, mas também me surpreendi com sua irmã, Lu, que entrega uma historieta, uma lembrança do primeiro encontro entre Cebolinha e Floquinho, de encher aos olhos. Laços é aquilo que eu estava esperando e mais um pouco. Na primeira vez em que bati os olhos no anúncio, logo após Magnetar, com o personagem Astronauta, se tornar um sucesso, o primeiro do selo novo da MSP, eu já esperava uma aventura oitentista, ao estilo Goonies, que me divertiu muito quando criança e ainda me empolga hoje. O que recebi foi mais ou menos isso, e muito bom.
Como não se encantar com essa fofura?

Não se enganem, Laços é realmente uma história da Turma da Mônica, com o quarteto que se tornou tão famoso a ponto de ser publicado em inglês e em espanhol e que gerou milhares e milhares de produtos, de brinquedos a filmes para o cinema. Mas ainda assim, a marca dos Cafaggi brilha em cada quadrinho, em cada balão. A trama é simples, como devem ser as histórias para crianças que também divertem aos adultos. Após mais um plano infalível fracassar miseravelmente, Cebolinha descobre que seu cãozinho fugiu, e se reúne à Mônica, Cascão e Magali para resgatá-lo, acabando por se meter em encrenca das grandes.

Tanto o traço quanto as falas e também os easter eggs espalhados pelos quadros, como os brinquedos do Careca, conseguem encantar, nos brindando com diálogos excepcionais e tiradas de fazer gargalhar do Cascão. Aliás, cada um dos quatro personagens parece elevado à infinitésima potência, se tornando tão diferente das versões gibis quanto parecido com a essência do que eles são. Cebolinha não é só o moleque levado dos filminhos que assistia quando criança ou dos gibis que devorei e devoro até hoje, mas também o gênio no qual os outros confiam, com a capacidade de liderança que precisa para tirá-los da enrascada. Já Mônica é tão delicada quanto forte, e mesmo em seus momentos de explosão, dá pra ver a meiguice da menina que não consegue controlar seu temperamento, mas adora seus amigos e faria tudo por eles. Cascão é o sujinho matreiro com espírito de porco que faz piada quando não deve e por isso mesmo é tão engraçado e camarada, sempre ao lado do amigo de cinco fios. E Magali, bem, ela é talvez a personagem que mais me apaixonei nessa história, já que não é preciso que ela diga muito, sempre sabendo o que fazer para ajudar a melhor amiga e quando ou onde deve se meter, e comendo de forma extraordinária.
Os outros personagens são também cativantes, cada um com características especiais, principalmente o “pai” da Mônica em participação especial e mais do que merecida. O trato dado ao encadernado foi formidável, com capa dura e páginas lindas, feitas com material muito resistente, o que me surpreendeu pelo valor cobrado, de 29 dilmas. Foi o suficiente para que eu saísse da banca com a revista em quadrinhos nas mãos, feliz da vida pela aquisição. Eu sugiro que façam o mesmo, não irão se arrepender.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Cinema e RPG

Novamente, no meu quase ritual, fui ao cinema quinta com as lindas e maravilhosas Ann e Ari, o que me rendeu um programa muito melhor do que esperava. Acabei fazendo uma resenha obrigatória porque eu precisava falar desse filme. Leiam e aproveitem que ao final tem mais uma curiosidade, ok? Até mais!

O Cavaleiro Solitário

Devo admitir: As impressões com a recepção de O Cavaleiro Solitário ao redor do mundo e aqui no Brasil não me fizeram empolgar quando escolhemos ver este filme, mas o resultado foi bem diferente do que eu esperava. Devo avisar que podem haver alguns spoilers, mas em um filme que é feito pela mesma equipe de Piratas do Caribe e é um Disney, isso não é exatamente um grande problema, certo?
A começar, posso dividir o filme de duas formas: Como cinéfilo, há grandes chances de você não gostar do filme, pelos excessos, pelas respostas não tão boas do roteiro e principalmente por algumas atuações meio engessadas. Já como filme pipoca, é um excelente programa para o dia de promoção do cinema, com espaço pra empolgação e muitas risadas, e eu digo muitas mesmo, por praticamente todo o elenco.
 
Nas palavras de Ann, o tom do filme se classifica por comédia a partir da cena da banda que toca perto do final, ali se condecora todo o empenho em fazer rir, o que não é um demérito. A trilogia de Piratas (porque o quarto filme é bem mais sério) se marca pelo alívio cômico dos piratas da tripulação de Jack Sparrow e o próprio, que consegue tirar humor de tudo e todos, principalmente quando está em perigo, ao estilo do que Johnny Depp faz com Tonto.

Ok, mas qual a história? John Reid (Armie Hammer) é um advogado recém-formado que volta para sua cidade natal no mesmo trem que está o bandido mais perigoso do Texas, Butch Cavendish (William Fichtner, praticamente irreconhecível). Em uma fuga alucinada, o caminho de John cruza com o de Tonto e o advogado cria antipatia pelo índio, o que é recíproco. Mais a frente, quando uma emboscada deixa o novo ranger (que ganha sua estrela praticamente de graça) às portas da morte, é o amalucado índio quem o traz de volta... Bem, na verdade é um cavalo branco, mas com a ajuda de Tonto. Com isso, John Reid se torna o Cavaleiro Solitário, uma lenda do velho-oeste e parte em busca de justiça, o que descobre não ser tão fácil assim.

Há muito o que se falar sobre esse filme, mas foquemos nas atuações dos três personagens principais dessa crônica, ou melhor, quatro se contarmos o garoto pra quem Tonto está contando a história: Armie Hammer é um ator afetado, e isso reflete no seu John Reid, que demora para se tornar realmente um herói. Não é bem um problema, mas fica meio difícil dividir a tela com Depp se você não consegue se tornar querido pelo público, e ele se esforça em fazer isso o tempo todo. Suas discussões sobre justiça e o modo certo de fazer tudo não precisam fazer sentido neste universo, mas são o que define sua personalidade. Já Johnny Depp entrega outro personagem Johnny Depp e sua atuação é quase automática. Ainda assim, não há como desgostar de Tonto, que rouba várias das cenas em que aparece, mas que talvez tenha sido suavizado para não fazer como na trilogia que tornou a parceria Verbisnki/Depp/Bruckheimer famosa (para constar, diretor, ator e produtor de Piratas). Sua versão futura, já velhinho, e sua conversa meio truncada são fantásticas e arrancam ótimas risadas de quem assiste.


Já Fichtner se entrega TOTALMENTE ao vilão Butch, desde suas manias até mesmo sua voz maldosa. Acho que nunca vi, em nenhum momento, um personagem tão terrível quando o dele neste filme, e isso porque ele não é indefectível, mas realmente bom no que faz. O tempo todo ele demonstra sua maldade, ao atirar em quem quiser, ter a fala mansa de quem já beijou a morte e também de fazer o que quiser. Porém, se precisasse elencar um problema é a instabilidade do personagem, que parece ser uma marionete o tempo todo, culpa de um roteiro muito extenso. Por fim, o pequeno Will (Mason Cook), cujo nome eu só descobri ao olhar no IMDB, faz uma boa dupla para Tonto, interferindo aqui e ali na narração para fazer perguntas óbvias que o público também faria, tamanho buraco na história, mas que geram boas cenas e conseguem solucionar alguns velhos breaks que Verbinski pegou mania de fazer, adivinha?, em Piratas do Caribe.

Bem, talvez seja injusto citar Helena Boham-Carter logo aqui, em que sua personagem, Red, apesar de importante, não faz mais do que mera figuração, quase aparecendo tanto quanto outros personagens menores, como o cacique dos Comaches. Mas é fato que estar novamente ao lado de Johnny Depp evidencia a química entre eles, principalmente nas rápidas trocas de olhares que não fazem muito sentido entre o índio e a meretriz. Por outro lado, apesar de tentar, não dá pra dizer se existe realmente alguma ligação entre John Reid e Rebecca Reid (Ruth Wilson), o que dá pra se relevar considerando os dramas dos dois, mas é realmente um ponto chato de se reparar.

Juntando tudo temos uma ótima aventura que se tem um pecado é ser longa demais, com detalhes demais. Quando apareceram os chineses eu fiquei pensando em que diabos estavam metendo o Cavaleiro Solitário. Mesmo assim, por conta de cenas como Silver no celeiro e o mesmo maldito cavalo na mina, vale muito a pena assistir esse filme. Verbinski cria sua própria versão do Cavaleiro Solitário, usando pouco da ideia original e nos dando uma comédia com muito heroísmo e batalhas marcantes. Recomendadíssimo.
...

Como denunciei no título da postagem, há ainda um ponto a ver com RPG. É que essa semana eu vi muita gente postando no face um link para uma LONGA PRA CARAMBA lista de perguntas que te diria qual seu personagem em D&D, com detalhes de classe, raça, tendência e até nível com distribuição de pontos. Eu gostei tanto do meu resultado conseguido com MUITO suor que resolvi trazer aqui pra compartilhar. Quem quiser fazer também, o link é esse aqui.

PS: É em inglês pra quem estiver interessado.

I Am A: Chaotic Good Human Bard/Sorcerer (2nd/1st Level)

Ability Scores:
Strength-13
Dexterity-11
Constitution-11
Intelligence-15
Wisdom-15
Charisma-13

Alignment:
Chaotic Good A chaotic good character acts as his conscience directs him with little regard for what others expect of him. He makes his own way, but he's kind and benevolent. He believes in goodness and right but has little use for laws and regulations. He hates it when people try to intimidate others and tell them what to do. He follows his own moral compass, which, although good, may not agree with that of society. Chaotic good is the best alignment you can be because it combines a good heart with a free spirit. However, chaotic good can be a dangerous alignment when it disrupts the order of society and punishes those who do well for themselves.

Race:
Humans are the most adaptable of the common races. Short generations and a penchant for migration and conquest have made them physically diverse as well. Humans are often unorthodox in their dress, sporting unusual hairstyles, fanciful clothes, tattoos, and the like.

Primary Class:
Bards often serve as negotiators, messengers, scouts, and spies. They love to accompany heroes (and villains) to witness heroic (or villainous) deeds firsthand, since a bard who can tell a story from personal experience earns renown among his fellows. A bard casts arcane spells without any advance preparation, much like a sorcerer. Bards also share some specialized skills with rogues, and their knowledge of item lore is nearly unmatched. A high Charisma score allows a bard to cast high-level spells.

Secondary Class:
Sorcerers are arcane spellcasters who manipulate magic energy with imagination and talent rather than studious discipline. They have no books, no mentors, no theories just raw power that they direct at will. Sorcerers know fewer spells than wizards do and acquire them more slowly, but they can cast individual spells more often and have no need to prepare their incantations ahead of time. Also unlike wizards, sorcerers cannot specialize in a school of magic. Since sorcerers gain their powers without undergoing the years of rigorous study that wizards go through, they have more time to learn fighting skills and are proficient with simple weapons. Charisma is very important for sorcerers; the higher their value in this ability, the higher the spell level they can cast.